A minha caixinha de memórias

do fundo da minha alma até ti


Sempre tivemos a mania dos mails colectivos...

12 de Dezembro de 2003

Desculpem lá se insistimos, mas já a seguir vai o texto que enviámos na semana passada e que por diversas razões não foi entregue na vossa caixa de correio-e. Esperamos que agora chegue em boas condições...

 

Eis o tal emilio colectivo de há tanto tempo prometido, pra contar como têm sido as nossas andanças, desde... desde.... Bom, o melhor é começar pelo monte dos papéis que sempre trazemos de recordação, pelo que a ordem dos eventos pode ser aleatória.

 

Em anexo, não enviamos a foto do barquito onde passámos a última semana. Aqui podíamos falar de tanta coisa que só isso era uma mensagem completa, por isso remetemos as aventuras para o visionamento do vídeo do nosso cruzeiro pelo Mediterrâneo, com passagem por Marselha, Génova, Nápoles, Messina, Tunísia, Palma de Maiorca e regresso à sempre nossa Barcelona (revisitada e descobrindo novas pérolas, sendo obrigatório o Hotel Peninsular, o mais bonito Hotel onde já entrámos e o mais barato, não se assustem!).

 

Este cruzeiro foi depois de uma semana alucinante, com uma viagem de Idanha a Madrid, para apanhar um avião para Milão que íamos perdendo por causa de um mega acidente na auto estrada que deixou a estrada quase imóvel, a 10 Km do aeroporto. Milão? Sim, para participar no congresso mundial sobre ELA (esclerose lateral amiotrófica), para saber as últimas e conhecer outros casos desta doença marada. Só isso deu-nos uns kilos de literatura, o encontro com cientistas, até portugueses, a trabalhar na área, entrada à borla no congresso e sempre muita comida.

 

Antes disto tudo, imaginem o que já vimos por aí, por este país fora, nos nossos carros GPL, com uma cadeira de rodas e agora até com uma gata atrelada. Imaginem...

Em Idanha-a-Nova muito teatro amador, desde grupos de Valbom - Gondomar até um de Vendas Novas, passando pelo grupo cá da casa, o AJITAR, com as peças "A noite dos assassinos" e "O Poder da Sedução".

Na Covilhã, fomos convidados para as estreias de "Snow, snow, snow" e uma outra vez de "Mahagonny Songspiel".

Um fim-de-semana aproveitámos as vantagens do cartão JUMBO Mais e fizemos um maravilhoso passeio por Vila Nova de Gaia que incluiu um passeio no rio Douro, uma visita às caves Croft e duas noites no Hotel Mercure Gaia.

Não faltámos, mais um ano, ao IMAGINARIUS, festival internacional de teatro de rua de Santa Maria da Feira, um verdadeiro e imperdível e impressionante e obrigatório e-vão-lá-pró-ano-porra festival de criatividade, imaginação, modernidade, ficção, efeitos visuais, gargalhadas, malabarismos, fantasias, sonhos e... e... tudo o mais.

Não perdemos umas férias no litoral, refugiando-nos dos incêndios do interior e vimos as actividades do Centro de Artes e Espectáculos Dr. Pedro Miguel de Santana Lopes, entre as quais uma exposição de pintura do Penicheiro, sardinhadas do Sporting e carradas de cultura no 5º A do Edifício Solmar na Figueira da Foz. Com passagem pelas lagoas de Quiaios e à Vagueira, para um peixinho grelhadinho. E uma visita ao Museu do Sal.

Do outro lado do rio, o Tejo, em Almada, há um recanto que experimentámos, com elevador panorâmico na Boca do Vento, e um passeio a pé à beira rio pelo cais do Ginjal até Cacilhas. Lindo!

Também experimentámos o Parque da Cidade do Porto, muito bonito, e visitámos calmamente o Pavilhão da Água, que na Expo mais parecia o pavilhão do inferno, tanta era a gente ao mesmo tempo.

No Centro Cultural de Belém também há coisas deliciosas, e à borla, todos os dias das 7 às 9. Quando passamos por Lisboa, e a essa hora não há nada para fazer, é onde vamos bater com a testa.

No Algarve, fomos para visitar amigos e, cada vez que diziamos a alguém que íamos ao Algarve, todos nos diziam: - Então, boas férias!!! Mas reparámos que quando vamos a outras partes do país só nos desejam boa viagem. Porque será?

Numa noite de Verão quente deste ano conseguimos ir ao Festival de Teatro Clássico em Alcántara, aqui na vizinhança da Extremadura, ver "Los 3 mosqueteros - la historia secreta". Hilariante e muito bom, muita qualidade. Mas no ano passado conseguimos deleitar-nos mais, com mais peças e ainda deu para dar um saltinho ao País Basco. Vimos "Como lo dijo Hamlet", San Francisco - Juglar de Dios" (Dario Fo) e "La Fuerza Lastimosa", de Lope de Vega.

Em Coimbra também algum teatro, com a Trupe do Leal Conselheiro, numa homenagem aos bons velhos tempos do Liceu D. Duarte, de ir às lágrimas.

De todos os filmes que a São viu, ao vivo ou em casa, não esqueceu o Moulin Rouge e continua desesperadamente à procura do clássico Brazil, com o Robert de Niro.

Também no Centro Cultural de Belém, não se perdeu uma festa a propósito do Dia da Europa, com entrada livre durante três dias, e com manifestações artísticas de vários países, da música aos penteados, etc, etc. Surpreendente e inebriante deu ainda direito a uma recepção para embaixadores e altos dignatários da Comissão Europeia e Institutos, na qual a São se introduziu e como era a única em cadeira de rodas e vestimenta informal (como sempre) foi muito cumprimentada porque devem ter calculado que era a representante do gabinete do parlamento para o Ano Europeu do Deficiente. Comeu que se fartou!

Também participámos na XV Mostra de Teatro Amador do Concelho de Oeiras, onde nos rimos às bandeiras despregadas com a pior peça de teatro que alguma vez vimos: Três em Lua de Mel, do Grupo de teatro Nova Morada (ninguém sabia o papel, nem o ponto!).

Não perdemos a homenagem ao Mia Couto, integrada no 8º Encontro de professores de português, onde assistimos à peça MIANGO, do Trigo Limpo - Teatro Acert, e estivemos a falar, mais uma vez, com o Mia Couto e com o Malangatana.

Os concertos em Belgais fazem também parte do nosso roteiro cultural habitual. A não perder, mas é difícil arranjar lugar, às vezes só com Cunha Veiga...

Uma visita ao Visionarium também foi bastante agradável, mas nada do outro mundo!

Mas nem tudo correu sempre bem. Numa das viagens o carro deixou de trabalhar, vínhamos de Coimbra a caminho de casa. Estávamos a 5 Km de Coimbra e logo toda a família ali ajudou. Mas como nós temos o seguro e tudo, aproveitámos a assistência em viagem, e enquanto o carro ficou na oficina ficámos alojados no Hotel IBIS, ali em frente ao Parque da Cidade. Por duas noites! Recomenda-se...

Mas nem só de teatro vive o Homem. Daí que a São tenha ido ver os La Fura dels Baus, ao Centro Cultural de Belém. O espectáculo, "XXX" (versão livre de La Filosofia en el Tocador, de Marquês de Sade), não dá para ser descrito, mas aqui no bilhete ainda vem a indicação: M/18 Contém cenas de sexo. E foi ao vivo...

Por falar nisso, o JP foi visto nos jornais e em várias televisões todo nú. No meio de outros 300 sem roupinhas nenhumas. Foi a foto do americano Spencer Tunick em Santa Maria da Feira.

No Teatro Meridional viu-se e gostou-se muito de Mar me Quer, do Mia Couto.

Ainda antes do Prestige ter sujado a nossa Galiza, estivemos com base em Santiago de Compostela e andámos a conhecer aquilo tudo. Um espectáculo! Em 4 dias. A maior surpresa veio do céu, com uma exposição das mais conhecidas obras do Rodin, entre elas O Pensador e O Beijo, que levou a São às lágrimas. Entrada livre. Ainda ela diz que Deus não existe.

Entre muitas andanças, continuámos a não perder todas as actuações possíveis do Lusitânia Jazz Machine, Dixiegang, os Macacos de Rua de Évora e Maria João & Mário Laginha.

Numa das reuniões habituais do JP, a São até foi ver um espectáculo para crianças integrado no Festival Internacional de Marionetas do Porto. Para experimentar um público diferente...

Nota: em Barcelona, 2004 vai ser o ano de Dalí e ainda um Fórum Cultural Mundial. No Portugal dos Pequenitos vai ser o Europeu dos Matraquilhos, com estádios muita grandes...

Não pudemos perder a continuação da saga da Conversa da Treta, aqui em Castelo Branco, e o Inox, em Lisboa. Para rir muito!

Uma outra vez, na Figueira da Foz, fomos ver espectáculos do Foz Jazz, muito bons e baratos.

Do Teatro de Alpedrinha vieram duas peças a Idanha, e estamos à espera de mais: "A Talha" e "Falar Verdade a Mentir". Teatro Amador ao nível dos profissionais.

Agor estamos a ultimar este emilio porque esta noite vamos ao Teatro, ver "O último tango de Fermat", amanhã é o espectáculo de guitarra do Miguel Carvalhinho, ontem foi o Dogville, um filme obrigatório, tal como o Bowling for Columbine, mas isto são filmes para quem tem cabeça. E no fim de semana vai ser o Kill Bill, para dar cabo de vez com tudo.

 

Agora a sério: ainda antes do final do ano vamos ter uma semana de férias para descansar.

Beijinhos y Abraços

 

 

MOÇAMBIQUE Nov.Dez. 2000

 

Beijos da Ana Paula, claro!

Mandem beijos para ela também. A gente não precisa de nada. Só de beijos!

 

Salaama? Muhaavo? Kooxeleliva.

Primeiro, estou a fazer o teste à caneta. Também estou a treinar escrever com a esquerda! Vai ser difícil e lenta a escrita! Agora com a direita e um pouco mais rápido e sem direcção. Agora, experiência com os dedos colados à caneta, com adesivo. Isto está a tornar-se trágico-cómico. Bem diz a Ana Paula que temos que arranjar um computador portátil. Pronto! Desisto! Vai mesmo à esquerda.

Meu Deus, tenho tanta coisa para falar e escrever. Primeiro, que estou cheíííssima de saudades e que penso em vocês todos os dias. Depois, que vocês nunca imaginarão em que sítio paradisíaco eu estou. Comecem a poupar dinheiro, já, para a viagem e venham em grupo. Isto é ainda mais bonito que o Brasil. E é sempre Verão, excepto a época das chuvas que vai começar e que só é desagradável porque, além de estar muito calor, a excessiva humidade torna o ar abafadíssimo. Não sei mesmo que escrever porque é mesmo impossível narrar ou descrever o que quer que seja. E cada pessoa sente as coisas de maneira diferente. Por exemplo, conseguem sentir ou imaginar que a água do oceano pode ser quentinha? Eu ia chorando, quando a senti. Conseguem imaginar-se a passear num panfleto de agência de viagens, numa praia com areia branquíssima, água quente e de um verde-água muito clarinho, cheia de coqueiros e deserta. Quando me passeio por aqui, parece que me vejo a mim própria num sonho. Nem as fotos, nem o vídeo mal gravado, conseguem mostrar como isto é bonito. Só vendo! As três palavras do início são da língua Makhuwa. Há, aqui no Norte, ainda outro dialecto: o Makonde, mas aquele é predominante. Ainda não consegui aceder à Internet porque é como a RTP-África, ou a electricidade, ou o telefone: às vezes, “vão-se”, somem-se por um dia ou dois, uma semana ou duas, e pronto: “No news is allways good news” (a treinar o inglês, D. Maria Amélia?). Aqui vive-se devagar e com carradas de paciência. Aqui ando “desnorteada” (no verdadeiro sentido do termo); em contrapartida, ando “ensularada” e a viver de cabeça para baixo. O sentido do trânsito também é ao contrário (influência da África do Sul). Imaginem-me, com esta idade, desorientada como sempre fui, a reaprender a atravessar a rua, a escrever “à canhota” e a comprar um litro de leite a 17.500 (dezassete mil e quinhentos?) meticais (+ ou – um dólar).

CREDO!

Adorei a vossa despedida no aeroporto! Andei uns dias para me livrar de todas as etiquetas. O meu avião era às 21h, não era? Não! Depois de entrar para o autocarro e fazer uns 4 Km de pista, chegámos a um canto escurinho, onde estava um avião das L.A.M. (Late And Maybe, disseram-me logo!), com o desenho de uma águia estilizada e enorme na cauda. Considerei que ver uma águia seria de bom augúrio, apesar das escadas de acesso abanarem demasiado, para o meu equilíbrio, com a ventania que ali fazia. Nunca tinha subido assim para um avião. Ia voando! Após uma horita de espera, ligam os motores, fazemos os 4 Km de pista e, quando já vamos com a tal velocidade enorme e ensurdecedora, desligam-se os motores, trava-se e ouve-se a voz do comandante: "Lamentamos, mas temos uma avaria técnica. Partiremos daqui a uma hora. Vão ser servidos os aperitivos para o jantar. Mantenham-se sentados!". E pronto! Voltámos a fazer 4 Km para trás. Mantive-me imperturbável e achei tudo perfeitamente natural – era esse o espírito da centena e meia dos meus camaradas. O pior é que era mesmo proibido fumar no avião e a viagem seria de cerca de 12 horas. Mas um gajo habitua-se a tudo! E assisti, pela única vez numa viagem de avião, a uma longa ovação quando o avião levantou voo!

Depois, lembrem-me de contar como paguei a boleia, numa van junto com mais dez pessoas, sentada num pneu, entre o aeroporto de Maputo e o centro da cidade, com uma garrafa de Carolans e um vestido cor-de-rosa e ainda trazia uma máquina de fazer pipocas e um chapéu de chuva (já dei tudo). Mas conservei como recordação um creme anti-rugas! Um sapato deitado ao lixo terminou a aventura da minha chegada.

Passei muito mal em Maputo, com os efeitos secundários provocados pela mistura dos comprimidos anti-malária  e de anti-depressivos. Tive uma quebra súbita de tensão da qual não consegui recuperar normalmente, seguida de um ataque de pânico, choque emocional, taquicardia, tensão arterial a zeros e entrei em estado de choque. Felizmente, estava em casa de uma cooperante dinamarquesa, amiga da Ana Paula, que chamou uma médica dinamarquesa que me pôs a dormir, desmedicou-me toda e agora só estou a tomar um comprimido muito fraquinho porque antes a malária do que estar duas horas a tremer, com suores frios e a pedir para voltar para Portugal no voo seguinte. Aqui já toda a gente conhece os efeitos dos comprimidos anti-malária, especialmente o MÉPHAQUIN, que leva a estados de depressão, suicídio ou loucura. É o pior, e precisamente o que eu estava a tomar. Mas já passou!

Estou em Pemba, capital da província de Cabo Delgado, antigo Porto Amélia. Já vi baleias! Vivo na marginal da terceira maior baía do mundo. Estou a dar explicações de português a um jordano, que só fala inglês, e a duas suíças e uma francesa, que só falam francês. O avião com o correio está quase. Vou continuar a escrever. Tirem fotocópias e enviem para Idanha.

AMO-VOS MUITO!

Não escrevam! Demora tempo!

 

PEMBA, 2/11/2000

 

Mahara habibi! – Isto é árabe e significa: “Olá, como estão, meus queridos?”

 

Agora já sei algumas palavras árabes, porque um dos meus explicandos é jordano, simpatiquíssimo, quer que eu seja a sua 2ª mulher, das 4 que tenciona, e tem possibilidades económicas para, ter, e passa a vida a chamar-me habibi. Também já sei algumas asneiras, sendo a mais divertida a zipi que, claro, tem a ver com “zipper”!

Aqui, tomo “banho à Makua” que significa tomar banho de balde. É que, apesar de haver cá em casa todas as canalizações normalíssimas, a bomba que puxa a água da rede está avariada. E pronto! É uma aventura tomar banho de pucarinho, numa banheira enorme.

Vivemos no 2º, e último, andar de um prédio com garagens. Apesar da altura, temos grades lindas em todas as portas e janelas, por causa desta ser uma antiga casa colonial. Todas as janelas e portas são duplas porque também têm janelas com vidros e janelas e portas com rede mosquiteira. Para ir à varanda, é preciso livro de instruções: 1º abrem-se as portas-janelas de vidro (normalmente sempre abertas), depois as de rede (sempre fechadíssimas) e, finalmente, as de ferro forjado (abertas quando estamos em casa). No início, quando saía de casa com muita pressa, dava sempre com a testa ou o nariz na porta de ferro. As casas coloniais aqui são às dezenas, mesmo centenas, e todas com estes esquemas, muitíssimo degradadas, com instalações eléctricas e canalizações do início do século e jardins abandonados. São palácios tristíssimos...de tão lindos! Lembram tempos românticos e ultrapassados que já ninguém quer. Mas são história, do homem e da arte. Terrível e bela!

Nos primeiros dias, em que aqui cheguei tinha a RTPÁfrica e estava em directo com vocês no Telejornal das 20h. Era hilariante porque, neste canto do mundo, as notícias perdiam todo o interesse e valor e tornavam-se verdadeiras anedotas, às vezes macabras! Desculpem lá, mas num país, como este, no qual 70% da população é pobre, mesmo pobre, ouvir dizer que os portugueses perderam 3% do poder de compra é ridículo. Depois avariou o emissor…e pronto! Agora dava tudo, como boa emigrante portuguesa que sou, para ver a carantonha asquerosa da Judite de Sousa a falar sobre os problemas gravíssimos que Lisboa tem…ao nível do tráfego!

 

Penso em vocês todos, todos os dias, a toda a hora!

 

Por favor, não gastem tanto papel! Aqui, ele é preciso! Em toda a cidade, só vi umas 4 fotocopiadoras e metade está avariada (as das escolas, claro!). Há 2 ou 3 pessoas que têm computador. As ONGs, a trabalhar aqui, também, mas de utilização restrita. Ah, pois, e os bancos! (que, também aqui, o dinheiro é que manda!). Nas escolas, as secretarias, têm máquinas de escrever antiquíssimas e a maioria do trabalho é feito à mão. Se queres uma cópia, usas o papel químico e os testes são escritos no quadro para todos copiarem. É tudo como, aí, há 50 anos. Os telefones ainda não têm marcação digitalizada e, por isso, a Internet é um problema. Em Maputo, seria tudo mais fácil porque as comunicações estão actualizadas e fazem-se por satélite e a 1ª coisa que ouvi, à chegada ao aeroporto, foi o som estridente de um telemóvel de um indiano. Mas, aqui no Norte, não temos télélés ainda e o Charles costuma dizer que é mais fácil abrir uma female que um mail. Demorei uma hora para abrir o meu Hotmail! Tentei ler uma mensagem e, ao fim de uma hora só para tentar abri-la, desisti e nem a li. É desesperante! Paciência.

Trouxe uma mala cheia de roupa (para frio e calor). Ainda lá está por desemalar. No meio de botas, sapatos, ténis e montanhas de meias, saquei de umas sandálias que ainda não larguei desde o 1º dia: já estão velhas de tanto uso, mas não se consegue usar mais nada. Trouxe 4 camisas brancas de algodão muito finas e é só isso que uso. Nem as T-shirts aguento, só se forem fininhas. E à volta da cintura uso uma “capulana” como fazem pretas e brancas. É só um pano muito leve para cobrir as pernas, que dá uma volta e meia ao corpo, exactamente como os homens usam as toalhas quando saem do banho. No início tinha medo que a capulana me caísse, mas como sou novata e rica e branca, tenho direito a capulana com um botão, ou uma tira de pano a fazer de cinto. Mas é verdade que a gente sente quando a capulana está a desatar. E é assim todo o ano porque aqui só há Verão, porque estamos perto do Equador e até na época das chuvas, chove muito pouco. Já começou a época e ainda não vi nada. Por isso aqui é mais desértico, os vegetais escasseiam e são caros, e a vida é mais cara e difícil que no Sul. Somos do tipo Trás-os-Montes. Não! Mais do tipo Alentejano, mesmo! E, ainda, mais lento.

Não, não vou daqui moreníssima, porque qualquer descuido: insolação! E, na praia, sabe bem é estar à sombra dos coqueiros. Ando sempre de boné e há dias, na rua, troquei o meu boné novinho e brilhante que dizia CNL – Canal de Notícias de Lisboa (uma bosta!) por um boné todo surrado e sujo, mas que tem a bandeira de Moçambique!! Uau! É lindo, agora que está lavadinho. E fica-me mesmo bem!

É tramado conduzir aqui! Só com co-piloto. Eu e o Jordano que se chama Youniss e tem 30 anos, já fomos dar uma volta, comigo a conduzir. Bem! Só vendo! O volante de todos os carros é à direita, mas as mudanças, à esquerda, são iguais às nossas, 1 3 5 por cima de 2 4 R. Credo! E as rotundas? Espero não ter nenhum acidente em Portugal. Sei que isto traz péssimas recordações ao Augusto e à Anucha (olá Sofia!) mas é mesmo tramado! Aqui ando sempre a pé e cada vez que vou atravessar a rua penso: olhar 1º à direita! O que vale é que há poucos carros; o pior é que mais de metade não tem travões! É cansativo escrever à canhota e nem imaginem o tempo que estou a demorar. Experimentem e vão ver. Tentem, pelo menos, fazer meia página. Até sonho com computadores portáteis, com impressões automáticas.

Para os viciados em telefones (mães e tias, não é?) há a notícia fantástica de que a Ana Paula pediu um cá para casa. Está quase, mas se não o puserem agora só lá para Fevereiro é que o podem pôr porque ela vai passar o Natal (aqui são as “férias grandes”) a casa. O ano lectivo está quase a terminar. Agora são os exames e em Fevereiro começam as aulas.

Pronto! A Ana Paula acabou de fazer o teste à malária e deu positivo. Vou ter que cuidar dela e não podemos dizer nada a ninguém porque a família entra logo em pânico e isso só agrava os nervos da Ana Paula. Eu, por mim, dizia. Não sei qual é o problema. Mas… enfim!

Aqui, as mulheres mais velhas fumam imenso e… pasme-se! Fumam ao contrário! Cravam um cigarro, acendem-no, viram-no ao contrário e “zumba” todo para dentro da boca; e só o tiram de lá de dentro quando terminou! E não fazem isso para turista ver, nem só nas festas. Andam aí, no meio da rua! A Ana Paula contou-me, mas eu nem liguei pensando que só o faziam de brincadeira. A primeira vez que me cruzei com uma mulher dessas, ía caindo. É estranhíssimo e creio que é único no mundo. E verdadeiro. Eu atesto.

Já estou muito cansada de escrever e até me doem as costas. A letra está a piorar visivelmente. Espero que consigam entender tudo, porque eu vou continuar até que a voz me doa! Estou sempre a beber água, porque o corpo me pede. Só o Rui é que sabe como se transpira aqui (lembras-te quando trabalhavas na Olá?). Quando faço esforços, pareço um atleta de alta competição. Até cego com o suor a cair da testa. Mas já me habituei e até é divertido beber o suor e tomar banho completo (cabelo e tudo) todos os dias, de água quase fria. Fotocopiem esta carta e dêem-na a toda a gente que quiser saber de mim. Olá tia Zabel! Mandem-na também logo para Idanha que a Zári ou o J.P. distribuem-na O mesmo aconteça com a 1ª carta que mandei para a mãe. Espero que tenha chegado porque, normalmente, metade da correspondência perde-se. O Youniss nunca ouviu falar nos Beatles e a Ana Paula não sabia quem era o Zé Maria. Já lhe contei, para ela não apanhar um choque quando chegarmos a Portugal. O melhor é reduzir a folha na fotocopiadora, que esta página não tem margens. Quanto a dinheiros:

Salário mínimo nacional – 700.000 mt

Salário da empregada da Ana Paula – 500.000 mt (só manhãs)

Salário de professor licenciado – aprox 4 milhões mt

Couve branca – 7.500

1 K beringela – 20.000

22 bananas – 10.000

1 Alface – 1.000/2.000

1 Papaia (2K) – 5.000

1 pão = 4 carcaças – 5.000

1 K arroz – 7.500

2 polvos imensos (5K e 4K) – 70.000

2 K camarão – 30.000

2 K camarão tigre – 70.000

1 Kg amendoim descascado – 9.000

Batata (K) – 5.000/7.000

Feijão (K) – 7.500/10.000

1 selo p/ país – 2.000

1 selo Portugal – 17.500

Ceres (sumo) – 25.000

1 lit. Óelo – 20 a 30.000

ATUM (lata) – 20.000

SARDINHA (lata) – 12.500

P.H. – 7.500 (1 rolo recicladíssimo)

1 mão de alhos – 3.000

1 K tomate – 6.000/10.000

1 l de leite – 17.500/20.000

Peixe – 20.000/30.000

 

1.000 meticais =       15$00

5.000              =      75$00

10.000           =     150$00

20.000           =     300$00

50.000           =     750$00

100.000 “        =  1.500$00

1 milhão “        =15.000$00

 

Duas ou três vezes por semana:

- 2 h. de explicação de port. – 60.000 mt -> Youniss

- 2 h. de explicação de port. (grupo de 3) – 40.000 cada -> Astrid, Inês, Nedine

- 1 h.                              - 60.000  -> Bárbara é rica. Da Suiça!

TOU RICA!

 

 

DEZEMBRO 2000

 

Minha querida irmã Guida (que pode fotocopiar para a Irmandade). Desculpa receberes uma carta tão «besta», tão em cima do teu dia de anos. Espero que esta só chegue depois desse «fantástico» dia 1 de Dezembro, que só o é por ser o teu aniversário, porque, quanto ao resto, toda a gente sabe que eu sou ultra-ibérica: «Y Biba España», tirando os reyes, a torada e o terrorismo.

Esta introdução foi só para me acalmar um pouco. É que de há uns dias para cá tenho andado a sentir-me um pouco ansiosa e confusa e nem sei por onde começar, que a minha vida está um caos! Foi muito bem aceite, pelo Director Provincial, o meu pedido para ficar aqui um ano a dar aulas. Depois de ter fotocopiado todos os certificados de todas as habilitações, com toda a identificação (passaporte, visto e B.I. de cidadã estrangeira) etc., etc., deveria hoje entregar tudo na Secretaria da Direcção Provincial, mas…perdoem-me todos, não tive coragem; senti-me tão triste, mas tão triste, que chorei tudo o que tinha a chorar, terminei a manhã em frente da Sé de Pemba, para falar com  padre Albino que eu conheci, porque ele queria que eu fosse dar aulas no Seminário. Por acaso, tropecei com a Vera numa rua e ela trouxe-me para a praia, enquanto está a terminar um trabalho. Voltei a sentir o estado de pânico a tomar conta de mim: tenho um qualquer pensamento menos agradável, o coração dispara, a tensão cai, começo a suar e a tremer muito e, pronto, descontrolo total. Hoje, consegui controlar-me porque comecei a andar e as respirar ordeiramente como aprendi no teatro, em técnicas de relaxamento. Agora só tenho uma leve dor de cabeça, mas todos os documentos que trago autenticados (um dinheirão no Notário aqui em Pemba) estão a queimar-me as mãos e a alma. Mas nunca conseguirei entregá-los, porque as lágrimas, desta minha imensa tristeza, refrescam as queimaduras e fazem-me sentir melhor, bem como estar aqui a escrever esta carta que me traz à memória só os momentos bonitos que passo com todos vocês – nem que sejam todas as horríveis confusões de todos os dias de Natal. O meu problema sempre foi amar demais e estar-me a sentir extremamente carente, porque estou deprimidíssima, porque não me sinto melhor, por estar aqui em Moçambique e ando «feita parva» a chorar pela praia que é um paraíso. Queria que todos vocês estivessem aqui, porque a solidão mata. Devo ter qualquer problema maníaco-depressivo. Claro que, quando estou ocupada a dar as minhas explicações, não penso na vida, nem no meu futuro e consigo aguentar as minhas limitações. No fundo, no fundo, sei que cada dia que passa, mais preciso dos outros (e isso entristece-me). Sinto-me sempre cansada (mas também é do calor) e tenho dores nas pernas. Faltam-me as forças e há umas semanas atrás descobri que mal consigo correr. Mas isso não me preocupa muito. Doenças há muitas e esta nem chateia muito. Mas quero envelhecer juntinho de todos os que me amam e, como nunca mais vos sai o totoloto para virem aos bandos para aqui, lá vou eu fazer o sacrifício de sair deste paraíso, voar na LAM e perder um Natal perfeito, sem frio, sem lojas, sem a febre consumista e sem aquela música foleiríssima do «a todos um bom Natal». Pensei que esta mudança de tudo me fosse trazer uma nova coragem e mais energia, mas não! Desde que aqui cheguei, que ando iludida e atordoada, com uma estranha sensação de falsa felicidade. Ando a fingir demais. Se calhar estou mesmo doente e preciso mesmo de ajuda médica. Agora estou em pânico só de pensar que vos vou encarar e que fui uma «parva» em não ter tido coragem de me separar de vocês, só por um ano (já sei que passava depressa, mas a casa da Ana Paula é enorme e ela, como eu ou qualquer emigrante, anseia por visitas). Venham até cá! Venham antes que África se transforme numa coisa horrível chamada Europa. Mas estes dois meses, por outro lado foram fantásticos. Depois explico-vos porque convosco eu só quero falar de coisas bonitas: embondeiros e frangipanis, caril e camarão, matapa e rituais de inicição. Só é pena a cultura branca estar cada vez mais arreigada e o dinheiro (dólar, dólar) ser capaz de levar à extinção tão lindos hábitos e comportamentos. É o neo-colonialismo, a mundialização e o neo-liberalismo. Não vale a pena lutar contra estes titãs. Na televisão, o TV Rural de cá ensina como se devem usar uns produtos químicos revolucionários para acabar com o oídio (uma doença nova que dá nos cajuzeiros). Também há agora uma outra doença que ainda ninguém percebeu o que é, que se chama cochonilha, mas também há tratamentos. Os agricultores só ainda não perceberam porque é que têm que proteger-se nas pulverizações. É que em 100 anos nunca tinham visto cajuzeiros a produzirem tanto e frutos tão grandes e por isso só pode fazer bem à saúde. E agora há a campanha: «Não roube os cabos de electricidade da rua! É crime!». O mercado negro é uma comédia: cheio de contadores de água e de electricidade. Parece que os brancos dão muito valor a essas coisas! Sabe-se lá para que servirão! As ruas de Maputo chamam-se: Avª Karl Marx, Avª Ho Chi Mihn, Avª Vladimir Lenine, ou Mão Tse Tung, ou Avª da Luta Armada. O partido do Governo há séculos é a FRE.LI.MO – Frente de Libertação de Moçambique (as siglas são giras!) e a RE.NA.MO está no Parlamento na oposição, mas como as eleições aqui são piores que na América, a Renamo de Afonso Djakama quer a recontagem dos votos, porque ainda ninguém percebeu quem ganhou e já passaram uns 8 meses! Uma das «gaffes» cá da «je» foi ter inventado um partido novo chamado FRE.TI.LI.MO (de Timor, estão a ver?), mas nestes períodos revolucionários, uma pessoa baralha-se toda! Nas manifestações da semana passada morreram 31 pessoas. Nós estávamos em casa, ouvimos o tiroteio e a parva da Ana Paula queria ir para a rua tirar fotos. É que a Ana Paula é da Renamo porque a Frelimo é marxista-leninista, portanto, vermelhos! Eu estou-me a borrifar para toda a gente, porque isto é como em Portugal: políticos só querem tacho, casa e carro da maneira mais fácil: sendo deputados na Assembleia. Mas são todos iguais, umas valentes bestas!

Aqui vive-se exactamente como no tempo do colonialismo. Na cidade de Pemba há meia-dúzia de brancos, com as respectivas famílias e cheios de mordomias (casas com ar condicionado, fax, telefone, Internet, carro particular e dois ou três criados) que fazem festas juntos e recebem salários chorudos! Há os cooperantes que dão formação (da pior), fazem campanhas e dão dinheiro valente para estradas, comunicações, etc. São alemães, suíços e dinamarqueses, riquíssimos e numa de passar férias. Raramente vão ao mato. São snobissímos e louros. Uma queria que eu lhe levasse o saco do carro para a praia. Ah! Ah! Ah!

Depois há os brancos religiosos (sobretudo espanhóis e portugueses) que são fixes, mas que têm umas ideias um pouco retrógradas e «preocupadíssimos» com a SIDA, pregam a moral e os bons costumes, porque aqui o costume mesmo é começar logo aos 12 anos, e rápido e depressa, porque a taxa de mortalidade infantil é grande e a esperança de vida é pequena. As escolas têm montes de meninas grávidas, mas aqui tudo é normalíssimo e a sexualidade não é pecado e é incentivada nos rituais de iniciação (quando há a 1ª menstruação). Resultado: um ritual destes é de pôr os olhos em bico a qualquer um! Eu assisti a um e fiquei um pouco chocada. Todas as mulheres da aldeia à volta das mais novas num show porno, no meio de uma batucada infernal, a beberem, a fumarem e a dançarem nuas ou semi-nuas, numas demonstrações ruidosas do acto amoroso, com uns paus finos e grossos e muita comédia à mistura. Claro que os homens não assistem, só se fazem simulações e como não há livros de educação sexual é assim que se aprende. As velhinhas, velhinhas, são as piores: apalparam-me as mamas e queriam que eu me despisse e dançasse. O pior mesmo é tentar explicar que só com muito treino se consegue dar às ancas daquele jeito que tem que ser: parece que têm as ancas soltas. E aí elas pensam que nós temos vergonha de fazer aqueles movimentos pélvicos todos, mas tentem vocês imobilizar o corpo todo, soltar as ancas e abaná-las à velocidade de 10 guinadas por segundo, correspondente às batidas dos batuques. Credo! Uma pessoa pensa que ainda parte algum osso e esta gente não deve ter tendões! A Ana Paula teve aulas de danças africanas, até já parece o Elvis, mas a comparação é de partir o coco a rir: parece a história da lebre e da tartaruga.

Depois há 1 branca voluntária, que é a Ana Paula, que só se distingue dos outros porque não tem carro, nem uma casa de luxo. E há os brancos das empresas sul-africanas e os indianos que são os donos das lojas, pastelarias, club de vídeo, papelarias e supermercados. Os realmente felizes são os brancos moçambicanos (caso Vera, Pedro, etc.) que têm terras na praia, constroem hotéis nas dunas e são donos de estaleiros, consultores de projectos, não produzem nada de interessante, mas são modernos, com estilo de vida todo europeu e sentem-se, e são, realmente, donos de tudo. São os mandões, fazem recepções ao governador provincial, recebem os políticos em casa mesmo não suportando esses «pretos da Frelimo», mas os «pretos da Renamo são mesmo grunhos». Depois, estão os milhões de negros, gente pobre que trabalha na agricultura ou nas fábricas, ou nos serviços. São analfabetos e quem sabe ler vai logo fazer uma formação de uma dúzia de meses e fica enfermeiro, técnico do notário, da justiça, empregado administrativo, etc. Mas vocês já conhecem o resto da história. O pessoal das aldeias à volta farta-se da agricultura, vem para a cidade, onde não há emprego, nem habitação, etc., etc. E Moçambique está a seguir o curso normal do desenvolvimento e do progresso e quem se lixa é o preto mexilhão. E como de boas intenções está o Inferno cheio, o povo já não entende porque é que não se pode cagar na praia, se eles fizeram isso durante séculos, e nem sabe muito bem o que são os esgotos ou saneamento básico. Já me passei com algumas coisas: o Jordano, que faz como todos aqui, enterra na praia a lata de Sprite porque é assim que é ser limpo; a Ana Paula, seguindo as campanhas da TV para a saúde, gasta fortunas em lixívia para todas as limpezas. As gotas de lixívia na água dos banhos e na água de lavar os alimentos é de paranóia com as doenças (e só os brancos é que fazem isto, porque a administração garante que a água de rede é tratada); a recolha do lixo é como antigamente, varre-se todo, mete-se num Unimog, leva-se para um campo qualquer e queima-se. O que não se queima fica por lá. Os pastores fazem queimadas monumentais, nesta altura do ano, para terem melhores pastagens. O Charles, marido da Vera, já foi Ranger – guia na caça grossa – e agora tem uns projectos de ecoturismo, que ele entende que é uma reserva de caça grande e vedada para safaris. Controlar espécies é o grande drama para ele, que mora num país onde a natureza está a dois passos do descontrolo total. Apesar de tudo, ainda é o mais ecologista de todos, mas precisa de muita orientação e parar de pensar em dólares.

Depois, estou eu. Desde que cheguei, ainda não lavei um prato, ou uma cueca, nem muito menos fazer a cama. Há empregados para fazer tudo. E é difícil falar com os empregados. Só sabem dizer: «Sim, minha senhora!». A empregada da Ana Paula, então, é mesmo «lerdinha» e trata-me por «sinhôra». Qualquer negro que esteja na rua, por mil meticais, leva-te os sacos, faz compras por ti, lambe-te as botas. Isto aqui é horrível! Foram muitos anos de escravidão que continua. Todos os brancos têm criados porque é a lógica da caridadezinha: «Oh, São! Não vês que assim estás a alimentar uma, duas ou mesmo três famílias de dez elementos cada uma.» Eu sou um «alien» que anda na rua a pé, ou tenho, porque os outros brancos insistem em dar-me, boleia. Faço as compras no mercado e, claro, às vezes era roubada, mas agora já não. Sei que há um preço para branco e para preto, mas é justo. Nos sítios públicos, toda a gente se desvia para eu passar, cumprimentam-me na rua, tirando o boné (velhos e novos), se me dirijo a eles para pedir informações. Aqui é perigosíssimo não andar de boné e também já me habituei a tirar o boné quando falo com alguém. É cómico explicar-lhes, no banco ou no supermercado, que não quero ser atendida em 1º lugar, que não tenho pressa (que os brancos andam cheios de pressa, ainda não sei porquê), que não pertenço a nenhuma organização, não sou empresária, nem voluntária, nem religiosa e que só sou turista. Pronto! Sou rica e excêntrica, porque os turistas não andam (nem os brancos) nos mercados, nem na rua, nem a pé. Os putos não me largam a pedir dinheiro. Mal habituados pelos brancos que passam a vida a distribuir moedas para não serem incomodados. Já me habituei a não ter pena e eles já sabem que eu não dou. Aqui é a terra das bungavílias e os únicos pássaros que vejo são pardais e corvos aos milhares; mas estes têm uma faixa branca no corpo. Os velhinhos dizem-me: «Bom dia, mamã!» quando passo e os mais novos chamam-me «titia»! Fico muito feliz quando falo convosco ao telefone e, mesmo que seja de noite, termino os telefonemas toda alagada em suor, por causa da emoção e da excitação (ah! e, claro, por causa do calor e da humidade média de 80%). Nas cabines telefónicas, cai-me suor para cima do telefone. Vou ter saudades deste calor, da água quente do mar e dos moçambicanos negros, cuja única maldição foi terem conhecido e aceite os brancos e a democracia. Viva a África negra e tribal! Levem-me ao aeroporto casaco, luvas, cachecol e gorro! Não posso adoecer no Natal!

PARABÉNS GUIDUCHA!

P.S. Se não faço um p.s., nunca mais me calo, mas assim é melhor do que contar a cada um tudo isto. Agora só rapidinhas:

Vejo o 24 horas, a RTP Economia, o Contra Informação e o Acontece, todos os dias às 6h30 da manhã, hora a que me levanto. O pior que me aconteceu em Moçambique foi ter adquirido o hábito de ver a telenovela, a pior de todas - Por Amor - e que até mete bebés. Todos os dias tenho vómitos com isto. O único Outdoor de Pemba diz: «Defende-te da SIDA! Com JEITO vai!» Jeito é o nome da única marca de preservativos e até tem direito a pub, na TV. Vi 2 peças de teatro aqui em Pemba: uma sobre a SIDA e outra sobre a construção e conservação de um poço que serve uma aldeia e a importância da água. Já consegui ganhar o meu 1º milhão de meticais, mas devo dinheiro à Santa da Ana Paula. Restam-me uns dólares que a Dª Mª Amélia e o Sr. Rogélio me deram. É para comprar presentes. Agradeçam-lhes!

Estou sozinha. A Ana Paula foi passar 15 dias a Nampula, Niassa e Malawi.

Se quiserem vir para cá, vejam www.vso-voluntaryserviceoverseas. Pagam tudo, por dois anos. Inscrevam-se já numa ONG. É fácil, é barato e dá milhões. A primeira coisa estranha à chegada a Maputo é ficar-se a saber que só há uma marca de café em todo o Moçambique...é Delta! Um café são 10.000 meticais em todo o país. Um maço de tabaco PALMAR – 6.000. Há publicidade, por todo o lado, à SIC na TV Cabo. Um sucesso. Bebo 3 a 4 litros de água. A água no oceano é quente! Parabéns Guida. Moçambique é tão linda, mas estão a privatizar tudo e a construir complexos turísticos caríssimos (4 estrelas para cima). Venham, enquanto a Ana Paula cá está. Não se arrependem. Amo-vos! Até breve!

Beijos fortes!

São

 

 

Que o meu Zé Duarte tinha guardada, desde Agosto de 2001!

 

Boa noite São,

 

Encontrei este email, na sua versão impressa, na última arrumação que tenho andado a fazer. Devo tê-lo imprimido para ler melhor depois e saborear também um pouco da tua aventura. Por vezes, lembro-me da história do único gajo que lia o guião da novela toda e contava aos meus amigos, mas não me lembrava bem donde vinha a história, pois aqui está...

 

Muitos beijinhos!

 

Zé Duarte

 

saoveiga <saoveiga@hotmail.com> escreveu:

 

Sozinha no Monte, sem nada para fazer e com algo parecido com uma insónia, lembro-me de vocês todos e sinto uma vontade louca de vos dizer que vos amo intensamente, mas a cada um de uma maneira especial, porque vocês são todos diferentes, que às vezes me bate uma saudade enorme de vocês, e que foi muito bom ter-vos conhecido (fartei-me sempre de rir com vocês e, por isso, fizeram-me muito feliz). Claro que não era nada disto que eu queria escrever hoje, mas saiu assim de improviso. O que eu queria mesmo dizer era que a minha viagem à Polónia, num camião com o meu irmão Rui, foi um espectáculo e que ainda não a contei a ninguém. Durante cerca de 15 dias, vivi num mundo aparte que não conhecia e que aprendi a respeitar. Há profissões lixadas e esta é uma delas: é que a solidão não é mesmo uma pêra doce e no estrangeiro ainda é pior; por isso, ouvir o telemóvel a tocar, com uma chamada de Portugal, ou uma buzinadela de um carro português, ou o encontro com outros motoristas portugueses pode ser de bimbos, mas é uma festa que comove. Nunca tinha visto um espírito de grupo e uma solidariedade tão grande como a que há entre os motoristas portugueses. Podes não ir à bola com aquele gajo, mas lá fora até matas para o defender. Aprendi montes de coisas: que não se diz camionista, mas sim motorista; que o alcatrão às ondinhas nas subidas não é culpa dos camiões, mas sim da merda do governo, que só faz estradas da merda, com alcatrão da merda, porque lá fora as estradas não estão nestas condições da merda, e têm montes de merdas de camiões a circularem. O camião era a nossa casa e tínhamos beliches para dormir e uma cozinha toda equipada (até frigorífico). Agora já sou fã e apreciadora de tunnings de camiões e acho os portugueses os piores condutores do mundo (a sensação que podia ter um acidente a qualquer momento só me aconteceu em Portugal e é horrível andar na estrada com o coração apertadinho nas mãos). Numa descida, para estacionar um camião, só mesmo com travão; se só o engatamos, rebentamos com a caixa de velocidades e com o camião ribanceira abaixo. O camião do meu irmão era o mais comprido (daqueles com 17m e duas galeras) e nas autoestradas, lá fora, ele ligava o piloto automático, de velocidade e aceleração pré-definida, descalçava-se e fazia assim 4 horas seguidas (máximo de tempo permitido para conduzir sem interrupções).

Levei montes de cassettes para ouvirmos música. Ouvimo-las todas várias vezes. Fartámo-nos de ouvir AC/DC e Aerosmith, porque o meu irmão queria ouvir as cassettes de um amigo que tem uma boa discografia de heavy, mas que é um maluquinho pela arrumação e põe tudo por ordem alfabética. Na próxima viagem serão todos os Bês. Nem vos consigo falar sobre as músicas que os outros motoristas ouvem em altos berros; é demasiado degradante, inenarrável e devia haver uma Lei a proibir esse tipo de música: ouço muita música na rádio, não tenho TV, mas vivo numa região de Portugal onde os concertos de música pimba se sucedem e até acabo por reconhecer alguns artistas, mas aqueles!!! Não reconheci um único cantor, ou cantora, ou grupo. Nem me quero lembrar!

Os outros motoristas tratavam-me sempre como a uma senhora, depois que o meu irmão se apressava a apresentar-me como a sua irmã, antes que algum se lembrasse de me perguntar quanto é que eu levava.

 

Passei um dia lindíssimo em Dresden, com os meus amigos Falk, Sandy e Henry e conheci, com eles, a Cidade Barroca da Alemanha. Da Polónia, guardo na memória que, a ver uma novela brasileira na TV, reparei que é um gajo que lê todo o guião e sozinho dobra todos os papéis; resultado, num diálogo entre um homem e uma mulher só se ouve aquela voz monocórdica a ler...texto. Sequinho!

 

Não, não vos vou falar da viagem pela Europa, nem da experiência de passar uma fronteira fora da Comunidade, nem da Polónia. Estava aqui horas nisto!

Precisava de escrever o dobro ou o triplo do que escrevi até aqui. Vou dar um Koniec a este texto que já vai longo. Ah! Curva é a asneira mais utilizada na Polónia e significa puta e eu era a siostra do Rui.

 

Estou com sono, vou dormir. Prometam-me que, um dia, também irão no camião com o meu irmão, só para passear. Ele gosta muito de companhia! Um beijo, Ruizão! Boa viagem!

 

São

 

 

Que o meu Rui Pinus tinha guardada, desde o ano 2000!

CARTA DO ACHAMENTO DO BRASIL, POR SÃO VEIGA

 

Ao muy ilustre Ruy Piñeiro

 

Aqui cheguei a S. Paulo, após uma viagem magnífica de 12 horas (o mundo é maior do que se pensa). A cidade tem 20 milhões de habitantes e é a 3.ª ou 4.ª mais poluída do mundo; por isso, após duas horas de estadia, eu e o grupo de 18 espanhóis que me acompanhava tivemos um ataque de dor de cabeça colectivo, acompanhado de pingo no nariz e ardor de olhos. Estávamos na Barra Funda e nos 40 km que percorri do Aeroporto ao Hotel (10 reais a noite), vi o Sambódromo, um tráfico de loucos e os estádios do Flamengo e do Coríntias. Cheirava a gasolina, que parecia que estava a viver numa estação de serviço. Acresça-se a esse, o cheiro intenso a álcool. Sim, há carros movidos a álcool de cana de açúcar!! Como o Brasil é o maior produtor e exportador desse combustível... “Não, moça! Não há incentivo para esse negócio, e está acabando! Como isso não interessa às grandes companhias petrolíferas, nem às grandes marcas de automóveis europeias e americanas, que tinham que fazer carros com mecânicas especiais... Eles querem é o açúcar e o Brasil se cala que tem uma grande dívida externa para pagar. Mas, sim, tem álcool para todo o brasileiro e ainda dava para exportar”. Posso ir comprar tabaco? “Não, moça! Você não vai comprar tabaco, você pode comprar é cigarros!!” A dor de cabeça era tão forte que decidi comprar os cigarros mais lights que encontrei (1 real), noventa por cento das marcas americanas (num país exportador de tabaco) e, após vinte anos a fumar SG filtro, aqui estou a escrever e a fumar SG Lights. Ah! Vou tomar o famoso café brasileiro... “Oxentche! A moça endoidou!! Café bom, do Brasil mesmo, se vende é lá em Portugal e na Itália e nos Estados Unidos. Aqui, o café que brasileiro toma, é bôrra mesmo!” Vejo publicidade por todos os lados às grandes multinacionais. Passeio sozinha, às nove horas da noite, porque me garantiram que ali era seguro. Tomei as mesmas precauções que tomaria em Lisboa ou em qualquer cidade do mundo. T-Shirt, jeans, sapatilhas e ar apressado, sem nada. Claro que será uma cidade violenta, mas eu não vi nada disso. Também não me passeio de vídeo na mão no Casal Ventoso, nem de dia, nem de noite! Se em Portugal se comete, digamos, um crime violento por dia, imagine-se numa cidade que tem o dobro da população portuguesa, a viverem uns em cima dos outros, e com ¾ da população a viver em condições sub-humanas e acabou de passar, a alta velocidade, uma Limousine branca enormíssima. Saí da cidade no dia seguinte e viajei de autocarro, durante 17 horas, para o estado vizinho de Rio Grande do Sul. Ah! Estava no Estado de S. Paulo e atravessei o estado de Santa Catarina. As viagens eram sempre enormes e baratas na relação Km/preço. Alguém do grupo ia sempre lembrando “É como ir de Madrid a Berlim!”. A viagem de S. Paulo e S. Salvador da Baía é como ir de Lisboa a Moscovo. Num mês, em que só viajei nos estados do Sul, devo ter percorrido uma dez vezes Portugal. O meio de transporte mais utilizado no Brasil é o autocarro porque a população não tem meios económicos para ter carro, e, por isso, há autocarros para todo o lado e a todas as horas. Nem nos preocupávamos com os horários. Mas nos estados do Norte, mais desérticos, a história não é bem assim. Veja-se o filme Central do Brasil com atenção e tenha-se uma ideia do Norte. Mas eu vim ao Brasil com uma intenção: conhecer e acompanhar de perto o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra – MST. Meu Deus! É uma odisseia escrever sobre o outro lado do Brasil, que não é nem telenovelas, nem samba, nem futebol. Isso é tudo mentira! Como falar de um país que foi invadido há 500 anos pelos portugueses (a que se seguiram todas as colonizações de todos os povos europeus) cujos bisavós ainda se lembram de terem sido escravos e cujos bisnetos falam das novas colonizações multinacionais, que pagam um salário miserável (130 reais é o salário mínimo nacional). Como é possível ser o maior exportador do mundo de soja, açúcar, café, tabaco, feijão e tudo, tudo quanto seja possível exportar e o brasileiro a viver na maior miséria. Os números são brutais: a modernização da agricultura expulsou do mundo rural mais de 30 milhões de pessoas que foram morrer de fome para as cidades (não há cidade que aguente). Os 20 maiores proprietários do Brasil possuem 20 milhões de hectares, a mesma área que 3 milhões de camponeses. 2,8% dos proprietários rurais possuem 57% das terras cultiváveis, entre os quais há detentores de propriedades com 100.000, 500.000 ou 1.000.000 de hectares. Sim! Imaginem uma pessoa dona de Portugal inteiro. Desde 1900, 3 mil empresas multinacionais investiram 87 milhões de dólares no Brasil, mas, ainda hoje, lá estão a ir buscar os juros e os lucros. O Brasil está a trabalhar para todo o primeiro mundo poder viver muito bem. Nos anos 70, o FMI instalou-se no Brasil. Em 1964, a dívida externa brasileira era de 3 milhões de dólares. Nove anos depois, 14 bilhões. Nos anos oitenta saltou para 115 bilhões (bilhões!). No início do governo de FHC – sigla de Fernando Henriques Cardoso, o presidente, chamado assim por todos os brasileiros e em qualquer situação: imaginem-se a ver no telejornal e ouvir que o FHC fez isto, declarou aquilo, inaugurou aquilo, inaugurou aqueloutro...! – Bem, no início de 1994, a dívida alcançou 146 bilhões e hoje bate os 235 bilhões. Já a pagaram 10 vezes e 45% do orçamento deste ano!!! (e todos os anos) vai inteirinho para pagar a dívida externa, mas só quem entende de alta finança percebe a perversão do sistema.

O MST é um movimento de milhões de pessoas desempregadas da agricultura que resolveu um dia ocupar terras, ou abandonadas, ou improdutivas, ou devolutas e cultivá-las! Recusam a posse da terra, porque, segundo o velho ditado índio, a terra não pertence a ninguém e os seus produtos são de quem a trabalha. Pedem só e unicamente a reforma agrária, pedem que os deixem cultivar o seu alimento para não morrerem de fome. Estão, neste momento, milhões de famílias acampadas em espécies de campos de refugiados, a viver da ajuda internacional das ONG’s e de organizações religiosas, à espera de um dia poderem vir a ser “assentadas”. É uma guerra de nervos. É que, um dia ocupam uma terra e no outro são desalojados pela Polícia Militar. Resistem até à morte, quando ocupam uma terra. Negoceiam com os proprietários, ou com as multinacionais donas das terras, ou com o governo. Dividem-na em pedaços de 8 há por família, criam cooperativas (1 tractor antiquíssimo serve para 100 famílias), vendem os produtos directamente ao consumidor e ainda ajudam o “acampamento” mais próximo que também está em guerra para conseguir mais um pedaço de terra. É um verdadeiro movimento de massas sem cartão de sócio, sem contabilidades, mas com uma organização vinda de um desejo legítimo de sobreviver e de trabalhar para comer. Estive no Brasil negro e envergonhei-me de pertencer ao 1.º mundo. Pediram-me só solidariedade e que divulgasse “lá fora” como é o Brasil verdadeiro: 1% da população é milionária, 29% é da classe média, 30% é pobre e indigente e 40% vive em condições sobre-humanas (vivem melhor os nossos animais domésticos). Estava aqui horas a falar sobre o Brasil real, que nos escondem debaixo de celebrações grandiosas dos 500 anos da sua descoberta! Puta que pariu todas as Comissões de Descobertas! Caralho para todo o dinheiro gasto em festas! Devolvam-no ao povo brasileiro que foi chulado durante 500 anos! Não quero os FHC’s e C. Lda. no meu país. Vão todos de cona! Não posso esquecer-me da alegria e simpatia com que fui recebida, da curiosidade em saberem todo sobre Portugal, da ansiedade de saberem se o movimento deles era conhecido cá e se tinham apoiantes lusos, ou movimentos de apoio à América Latina que está toda no mesmo estado. E diziam: “Moça, fala mais um pouquinho que a gente adora o teu sotaque!”. E quando em ficava triste de ver tanta miséria diziam: “Ah! Moça, tem que fazer como brasileiro: ele ri para não chorar e dança para esquecer!”.

Necessitava de muito do teu tempo, Ruy Piñeiro, para te falar de tudo: das paisagens, das gentes, das cataratas da Foz do Iguaçu, das florestas, dos lagos, da flora e da fauna, mas não dá tempo. Estive no Paraíso e no Inferno, no Paraíso Natural e no Inferno Humano... Não, nesta vida de merda que levamos a correr não sei porquê, não há tempo, nem nunca haverá para se falar sobre a dimensão do Homem e do Mundo! Talvez um dia, numa “utopia” – que significa à letra, “outro lugar”.

P. S. Só para quem, no final deste artigo, se interessar por estes assuntos, consulte-se na net www.mst.br. É urgente! Ah! Para quem quiser ir ao Brasil, só a viagem é que é cara e um Real está, mais ou menos a 100$00. Quando a alta finança e o dólar lhes apetece, pode subir ou descer. Sabes o que é um marionete?

 

São Veiga

 

Nota: Esta carta foi-nos enviada à redacção, antes das últimas manifestações que se realizaram na comemoração dos 500 anos do achamento do Brasil.

 

 

In Correio de Idanha, S. A., Idanha-a-Nova, Maio de 2000, ed. 24 (ano 3), pp 2

 

(música - Brideshead Revisited de Geoffrey Burgon)