A minha caixinha de memórias

do fundo da minha alma até ti


Amar uma pedra (Fevereiro de 2008)

 

Mas qual é o sexo dELA?

                                                    

 

A minha vida dava uns títulos

 

Há livros que só o título diz tudo. Nem precisam ser lidos, digo eu! Quando andava pela juventude, deprimida, adorava dizer que me sentia: ”Com a morte na alma” magnífico título de um livro do Sartre, que eu nem nunca li, e berrava a todos: “O meu inferno são os outros”, como uma personagem de uma das peças dele. Cada vez que sentia desamor, lembrava-me de gritar contra “A Insustentável leveza do ser” de alguns homens, e do Kundera. E, sempre que me vou abaixo emocionalmente, justifico logo a fraqueza com um “Viver todos os dias cansa” de Pedro Paixão. Se estou bem, canto baixinho o refrão do Malandro: “Ai, meu Deus do Céu, me sinto tão feliz!”. Isto para não referir o d’“O amor é fodido” do divertido MEC…e outros, e outros!

A semana passada dei um salto com o título “7 anos de mau sexo”, um lançamento recente da cronista Ana Anes.

 

7 anos de mau sexo?

 

Como em inúmeras coisas da minha vida, isto do sexo sempre foi um assunto ao qual nunca dei grande importância. “Um gajo anda mesmo distraído” pela vida fora e eu nem sei com quê!

Hoje, quando me perguntam de que é que eu sinto mais falta, respondo sempre:

                       abraçar os “meus-mais-que-tudo” com força e

                       nadar nua debaixo de água!

Até sonho com isso! É raro, mas às vezes, até raia o sonho erótico.

(A propósito de erotismo e sonhos molhados (?), também sonho muito com lavar pilhas e pilhas e pilhas de loiça, com muito prazer, e muita satisfação, de ver tudo a brilhar, sem me cansar, e dobrar centenas de peças de roupa em montes ordenados e certinhos, muito bem dobradinha, para não ter que a passar a ferro, mas isto é assunto de outra história).

Por incrível que pareça, nunca me lembro de desejar andar, muito menos correr, ou andar de bicla, usar as mãos, falar alto e rápido ou dar sonoras gargalhadas.

Nunca pensei algum dia ficar tão sensível, tão atenta aos sentidos, ao meu corpo, à minha pele, ao contacto físico com os outros!

 

ELE há coisas com que ELA não pode

 

Não posso dar “Aquele Abraço Apertado” ao meu Amor e isso faz-me sentir o coração tão apertado como o abraço que lhe não posso dar.

Como fazem as pedras e as árvores para retribuir os abraços que lhes damos? A mim, resta-me escrever-lhe, que também já mal posso falar, embora saiba que nem preciso, que o meu Amor sabe ler os milhares de olhares com que também sempre nos comunicámos.

 

 Que importa?...

 

 Eu era a desdenhosa, a indiferente,

 Nunca sentira em mim o coração

 Bater em violência de paixão,

 Como bate no peito à outra gente.

 

 Agora, olhas-me tu altivamente,

 Sem sombra de desejo ou de emoção,

 Enquanto as asas loiras da ilusão

 Abrem dentro de mim ao sol nascente.

 

 Minh'alma, a pedra, transformou-se em fonte;

 Como nascida em carinhoso monte,

 Toda ela é riso e é frescura e graça!

 

 Nela refresca a boca um só instante...

 Que importa?... Se o cansado viandante

 Bebe em todas as fontes... quando passa?...

 

 Florbela Espanca

 

 

            

 

Embora imobilizada, como uma pedra ou uma árvore, sinto cada átomo do meu corpo e agora muito mais intensamente do que nunca, porque dependo sempre de um Outro-Eu para gozar, ter prazer!

 

Ou para não gozar, nem ter prazer nenhum:

- Alguém me mate essa melga que me está a picar na perna esquerda! Lá mais perto do pé, no tornozelo! Não, uns cinco centímetros acima do maléolo interno! O do lado de dentro! Sim, sim, bate com força! Mataaaaa-a, pôrra!

E quando não conseguir falar?

- Calma! Primeiro esborracha-me bem essa melga, coça um bocadinho no sítio da mordedura, que estou a tratar do problema!

O meu Amor, farto de me coçar e de matar melgas nos meus Estios, investigou, investigou, procurou, procurou e comprou-me no Jumbo um repelente de melgas electrónico, tamanho M, e um portátil a pilhas que me dão o prazer sublime e orgásmico de não ser picada, chupada, mordida, comida, devorada…pelas melgas! Mas para quem pensou que estive para aqui a falar do sexo dos anjos ou de dildos, vejam, vejam:

        

 

 

Por falar em calores, com 18 anos, eu e o meu Amor andávamos de bicla e tomávamos banho no Mondego. À noite, acampados, fazíamos uma fogueira e assávamos salsichas espetadas em ramos desfolhados de eucaliptos.

(Eucaliptos recém-plantados e os quais arrancávamos pela raiz porque éramos contra as plantações. O João Paulo até em Valpaços andou!)

 

 

 

 

 

O nosso amigo João Santos convenceu-nos de que, se queimássemos muitas folhas de eucalipto na fogueira, afastávamos as malditas melgas do acampamento! Aquilo é que era ser chupado, comido, devorado por elas! Relações e comichões nadinha eróticas, garanto!

 

7 anos de excelente sexo!

 

Este é o título que hoje me apetece! Este é o título que me apetece todos os dias, sobretudo desde há cerca de 7 anos para cá, por volta das 16h30m, que eu também pertenço às estatísticas, nessa área da mulher quente/hora escaldante.

E pertenço às estatísticas dos deficientes, dos feios, dos macérrimos (superlativo absoluto sintético erudito do adj. magro), dos reformados por invalidez, dos das pensões de miséria, e dos idosos com 44 anos! Nada erótico, nada erótico!

Mas também sei que pertenço ao grupo dos muito felizes, porque o meu corpo é amado, com paixão, desejo, sexo e emoção.

Realmente, amar-me é muito difícil!

Primeiro, porque sou mulher e, portanto, dou uma trabalheira! Para me amar, o meu Amor não pode só dizer Amo-te! todos os dias.

 

 

 

Tem que me beijar, limpar, lavar, tocar, secar, passar creme, massajar, mudar o tampão, o pensinho, a cueca, beijar, usar dodots, papel higiénico, palpar, pentear, depilar gentilmente as minhas pernas com as gillettes dele, beijar-me, depilar-me com firmeza a cara com a pinça, levantar, baixar, virar...conhecer o meu corpo como a palma da sua mão e usá-lo com todos os sentidos: audição, visão, olfacto, tacto, gosto ou paladar. Posso não me mexer, mas faço amor com os cinco sentidos violentamente despertos! Dizem que o melhor para fazer amor com uma mulher só outra mulher…Não, não é preciso! Basta amor! Mas um amor natural, mental, conversador, sensitivo, sensual, brincalhão, profundo, sexual, pleno de entrega, demorado, físico, paciente, agora mais rápido, mais força, mais ao lado, mais aí…

Que até para os meus momentos mais pessoais, puramente egocêntricos, os meus momentos de prazeres solitários, preciso da intimidade do meu…Outro-Eu!

 

 

 

 

Amor é a 2

 

As pessoas deficientes que não têm quem as toque, abrace, beije, mexa, acaricie, estão a morrer! Não da doença, mas da tristeza da solidão da ausência de um abraço apertado.

Tive que ler e concordar, com tristeza, num destes dias:

"Jorge de Sena dizia que, sendo contra a prostituição, era a favor dela para estes casos. Estes e os outros, dos feios/feias e horríveis que (podendo...) teriam que pagar para ter direito a uma vida sexual.”

                                          

Este site www.disaboom.com – Unindo pessoas tocadas pela deficiência, aborda múltiplos aspectos (saúde, vida em comunidade, carreira…) da vida das pessoas com deficiências de diversos tipos.

Apresenta uma abordagem à sexualidade em vários artigos na perspectiva de quem tem limitações físicas. Alguns exemplos:

 

- Posso ter um parceiro sem deficiência?

- Descobrindo o mundo dos orgasmos mentais

- O meu corpo está tão diferente agora

- Beleza da mulher deficiente em concurso

 

 

Eu, Ela y os amantes

 

Tenho dois amantes descaradíssimos que me mimam só com pornografia (mas, esta sim, da erótica!). Não me faltam um dia que seja e oferecem-me rosas rubras, gargalhadas felizes de palhaços-músicos e esta t-shirt que é a minha cara chapada:

 

 

 

 

 

 

Eles, os meus amantes, denominam-se AfundaSão e Tunameliches (vd.Google). Durmo com eles todos os dias e como eles sabem que é difícil satisfazer uma mulherárvoredepedra e só vou à bola com “hi-tech, computadores e pénes” – como diz o meu Amor – pediram à Erosfarma (vd.Google), uma amigona deles, que me desse um presente Na Tal 2007! Calculem! Adorei, pois está claro! O que eu usava antes ainda se chamava “massajador facial”, comprado pelo catálogo da LaRedoute, tinha 20 anos (um jovem!), mas andava avariado das “pilas” (como lá dizem os espanhóis).

 

Nestes amantes virtuais encontro os amantes reais que amam como eu ou tu, como nós, como todos vós…

 

 

 

Charlie: "Da linguagem quase perdida e imortalizada nas pedras há muita coisa a aprender e estudar. Por toda a Europa se encontram figuras rondando, sempre de forma grotesca, este tema. A sua leitura, que num ambiente de quase total analfabetismo, era transversal a todos os estratos sociais dessas épocas e ter-se-á perdido com o passar dos tempos.

Dou por mim a imaginar todo o ambiente que se viveria nos estaleiros onde, às mãos de mestres e aprendizes, as peças eram cinzeladas e aparelhadas de forma a imortalizarem-se das mudas pedras que esperaram uma eternidade para se perpetuarem em mensagem.

O que é que as pedras querem dizer de verdade?

Não a sua mensagem directa, mas a outra.

Essa que sentimos quando olhamos interrogativos e, quantas vezes, perplexos para elas.

Elas dizem sempre muito mais do que estão a dizer-nos.

Talvez o que queriam dizer é o que elas calam e que ao calar acordem, na luz da noite, o nosso subconsciente colectivo.

Um farol à vista mas oculto entre o mar."

 

In http://afundasao.blogspot.com/

 

 

Só os poetas amam as pedras e as pedras só amam os poetas

 

 

 

 

 

 

(Dedicado ao PM)

 

 

música - Planícies de Carlos Bica

Frank Möbus (guitar), Carlos Bica (bass), Jim Black (drum), Maria João (voc), Ray Anderson (tb)