A minha caixinha de memórias

do fundo da minha alma até ti


Outubro 2006

Estamos no início do novo ano escolar (2006/2007) e eu não perdi o velho hábito de pensar este tempo como o recomeço de tudo. Cá vou eu, como todos os estudantes, aplicados ou não, limpar a secretária, limpar o computador, planificar os próximos meses, contar como foram as férias grandes e jurar a pés juntos que, desta vez, vou mesmo tentar ser a melhor da turma.

Claro que esta sensação de estar cheia da energia do arranque, do início, da descolagem, dura só até ao fim de Dezembro, porque em Janeiro volto a ter esta sensação de renascimento, com o novo ano, no réveillon, os renovados desejos, as promessas, as listas de afazeres, o ansiado calendário de 2007,…

Ah, pois! Na Primavera, também me dão estes ataques e, numa fúria de alegria e felicidade de ter sobrevivido ao Inverno, desato nas limpezas, rasgo tristezas, apago lixo, dispo-me de agasalhos, perco vergonhas, preparo novas viagens, idas e partidas, e até mordo a vida.

Aliás, a falar verdade, de cada vez que termina uma das passeatas, mais ou menos, quinzenais com o JP, venho cheia de boas vontades e fortes energias.

Pronto, já só falta dizer que, todas as manhãs, canto a musiquinha do SG: “…hoje é o primeiro dia do resto da tua vida…”, mas é mentira, é exagero!

 

Nem sei por onde começar. Acho que vamos ao sumário:

 

I - os luxuosos bens materiais adquiridos

II – as súbitas resoluções

III – os absorventes trabalhos

IV – os espantosos resultados

V -  as conclusões

 

I - os luxuosos bens adquiridos

Lembram-se de eu escrever que acordava de duas em duas horas, durante a noite, para ser virada/mobilizada, o que resultava num descanso pouco satisfatório para mim e para quem dormisse comigo?

Pois, um dia, estava eu numa cama do serviço de Neurologia I dos HUC e reparo que a minha vizinha do lado tinha o que parecia ser um compressorzinho de ar debaixo da cama e um colchão estranho. Como a senhora estava ali a dormir sossegada há uns três dias, e não havia meio de acordar, fui indagando os enfermeiros sobre todo o arsenal de máquinas que a rodeavam! Pasmem:

“Aquilo pertence a um colchão de ar de pressão alternada. Usa-se em pessoas queimadas ou imobilizadas durante muito tempo. É formado por alvéolos que se enchem e esvaziam em alternância, o que provoca um movimento contínuo, mas muito suave do corpo…”.

Nem ouvi o resto da explicação! Quanto custa?

“Nestas coisas, vai dos 7 aos 77 (contos) consoante as paneleirices do costume”.

O meu é dos mais baratos. E o meu record é de 6 horas seguidinhas a dormir regaladamente. Agora até já tenho dois, para as viagens, e deixo aqui vários avisos à navegação: há também mini-colchões e almofadas para pessoas que não aguentem viagens longas de carro, ou acordem muitas vezes durante a noite; tem é que se ter cuidado se dormimos com gatos: a nossa Cinha, ou a Reñoñas podem ser as responsáveis por alguns remendos que já decoram o colchão velho.

 

        

 

 A concluir: Porque é que nenhum profissional de saúde me disse nos HUC: “Pôrra, São! Contigo, internada, o turno da noite é insuportável! De duas em duas horas a chamares-nos! Porque não compras uma merda de um colchão de ar de pressão alternada e nos deixas ter um turno sossegadinho a dormir?”. Eles explicaram-me que estavam ali acordados e vigilantes, mesmo para isso: para fazerem tudo o que eu pedisse, para que eu estivesse bem. (E eu que já tinha pensado numa cama com mini-basculantes laterais de movimento programável, para me virar como frango em churrasco! As coisas que me passam pela cabeça e a falta de cabeça que, às vezes, parecemos ter, não é?).

Lembram-se de eu escrever que estava a precisar de um apoio para a cabeça que fosse ajustável à minha velhinha cadeira de rodas, e que até poderia comprar o melhor do mercado, porque os amigos que me quiseram comprar o portátilSão, acabaram por depositar dinheiro que não foi gasto, porque o portátilSão foi oferecido pelo Silva? Pasmem:

Fui a Lisboa, Famões, assistir a uma demonstração do importador de um apoio de cabeça, a Alartécnica, cheia de assistências e técnicos, que me apresenta um produto americano ultracomplexo, adaptável a todas, todas, as cadeiras de rodas, ajustável, em dez pontos, a todas as cabeças, todos os tamanhos de pessoas: pequenas, altas, magras, grandes, gordas, robustas, muito fortes, pesadas, XXLs e Americanas! Realmente, era o que eu tinha visto na Internet, “por acaso, não tem aí o tamanho normal, sem acessórios, nem os dez botões de ajuste, que eu não vou crescer para lado nenhum?”

“Não! Tem que levar tudo!”

   

 

                                                                 (valores em dólares)

Como consigo ler nas entrelinhas, à distância, e com os catálogos virados do avesso, em cima de uma mesa de um escritório manhoso, percebo que pelo preço de um apoio de cabeça futurista e americano, podia era comprar uma muito boa cadeira de rodas já com o apoio de cabeça incorporado e peço que me seja enviado por mail, um catálogo de cadeiras de rodas, que estava ali ao lado na mesa! “sim, senhor, concerteza, pois não, D. São!"

Passados dois dias, ainda me dei ao trabalho de enviar um mail a renovar o pedido, que podiam ter perdido o meu endereço.

Até hoje! Receberam-no vocês? Eu também não!

Voltei à Internet, fui aos meus habituais sites espanhóis, vi dezenas de “sillas de ruedas” apropriadas à minha doença, ao meu corpo, à minha vida errante, desmontable, plegable e reclinable (!), com entrega, em 24h, em qualquer ponto de España. Vale, vale!

 

 

Dois telefonemas: um a encomendar, outro para os meus queridos professores de merengue, salsa y tango, a Isabel y o Miguel de Cáceres. Que bom! Valeu mais um passeio e uma visita aos meus amigos de Idanha.

 

A concluir: A Internet, para mim, é uma questão de sobrevivência.

Comprei a melhor de todas que, por acaso, era a mais barata! Não sei! 353.60EUR!

Os meus amigos deram-me este carrão! Um luxo! E ainda há uns trocos para a gasolina!

 

(olhem lá o luxo da minha máquina, da minha fourwheel bike! Até se deita nas curvas! Eu sei que, com qualquer gaja boa em cima, o pessoal até vê Rolls Royces, onde eles não estão...eheheh!)

II - as súbitas resoluções

Lembram-se de eu ter escrito que tenho uns pulmões portáteis, uma máquina que respira por mim, “estranhamente chamada eclipse”. Pois é, eclipsou-se!

Calma, calma, não deixei de respirar!

É que eu e o João Paulo gostamos tanto, tanto, de espaços exteriores, de rua, de sair, de ir, de partir, de voarmos juntos (eu no colinho dele), de passear por aí, que, quando eu disse: Ó João Paulo, mata!...O João Paulo esfolou! (logo, logo…)

E, subitamente, resolvemos isto:

 

 

 

Maria da Conceição Faria da Cunha Veiga

R. do Bairro Azul, nº 21 -r/c

Mesura - Sta. Clara

3040 - 196 COIMBRA

Utente HUC nº 196312000723

ADSE nº 013654926

Tlm – 96 666 9315

saoveiga@gmail.com

Ministro António Correia de Campos

Av. João Crisóstomo, 9, 6º -1049-062 Lisboa
Tel.: 213 305 000
Fax: 213 305 175
gms@ms.gov.pt

 

Coimbra, 14 de Setembro de 2006


 

 

C/ conhecimento:

Director do Serviço de Neurologia do

Hospital da Universidade de Coimbra

 

 

 

Excelência

 

(continua em Carta ao Ministro)

 

III – os absorventes trabalhos

Agora, um momento um pouco mais triste, porque é triste reconhecer a “alegria no trabalho”e desculpem lá os fascistas!

É verdade. Tenho estado ocupadíssima a ajudar amigos a fazer blogs, criar webpages, escrever cartas, traduzir coisas, criar coisas, vasculhar tudo, tudo, na Internet, e claro, como qualquer eficientíssima secretária, ou trabalhador informático, ou brilhante internauta, ou ganda chata:

recebo/vejo/amo/selecciono/gravo/apago/odeio/colecciono/reenvio

mails e mails e mails e mails e mails e mails e mails e mails e mails

A correspondência continua atrasada e a Zé já está há duas semanas à espera que eu lhe faça um horário escolar bonito…

 

Aconteceu-me ter mandado o computador para descanso, por três dias do mês passado, mas quem ia morrendo com uma súbita depressão, fui eu! Faltou-me tudo, de repente: trabalho, ocupação, diversão, companhia.

Sobrou-me

no meu quarto

uma parede branca

na minha frente

como a morte

com uma foice ao ombro

que era uma televisão negra...

Não mais me deixes só, meu Amor!

 

 

IV - os espantosos avanços

Desde a semana passada, que tenho uma novíssima máquina para respirar, com muitos alarmes, bateria incluída com autonomia para três horas, ficha de ligação a isqueiro e, pasmem: o aluguer até fica mais barato ao estado! Foi o meu médico, Dr. Negrão, neurologista dos HUC, sagitário impetuoso “comámim” que, num repente, cutucou uma leoa feroz, chamada Drª Maria João, chefa do serviço de Pneumologia, dos HUC, que se levantou, na sua majestade de mãe-protectora, mandou a empresa Vital Aire às urtigas, com uma patada só, e pôs a empresa Praxair aos saltos no mercado, com uma nova, excitada e agradecida cliente, moi, a viver um verdadeiro caso de amor à primeira vista com o meu novo ventilador, o Vivo 40! E que nome ele tem! Eu, nos meus turbulentos 42, sempre seduzida pela tecnologia de ponta, até fico sem fôlego quando ele me pisca as suas luzinhas…É lindo! E os astros dizem que somos compatíveis!

 

 

 

Antes Antes              Depois Depois

 

 

Saí do hospital, nova e afinada, como “bólide a sair da box”, e vou lá voltar, para a semana, para fazer o que qualquer pessoa faz quando está apaixonada e se sente muito bem…arranjar os dentes!

 

V - as conclusões

ainda estou a escrevê-las

vou estar para sempre a escrevê-las

mas um beijo

S

(música - Bridshead Revisited de Geoffrey Burgon)